Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Procissão

Em 07/07/2006, Nel Meirelles escreveu em seu blog:

procissão
é um dia depois do outro
nessa fila inconsistente
de cacos de degraus
restos de praias
e canções esquecidas de mim

[Nel Meirelles]


Um dia não teve mais
o outro dia.
No dia seguinte
ao último dia
não teve procissão.
Mas as canções
que ficaram
serão lembradas
por nós.

[Solange Firmino]

Nel Meirelles: O Arrumador de Palavras



Essa expressão foi escrita pelo poeta Nel Meirelles em um bate-papo que tivemos em 2005. Dizia ele que poeta parecia título acadêmico e que preferia se autodenominar “arrumador de palavras”. Em vez de falar dele, acho mais interessante que leiam um pouco dessa conversa.Esse tópico é uma homenagem ao poeta, que morreu essa semana.

(20/8/2005)
As palavras


Solange, você levantou uma questão muito interessante. Gramática e liberdade poética.


Não vejo antagonismo entre as duas vertentes. Eu procuro escrever de forma correta, respeitando regras, uso dicionário - se for preciso. Não que eu seja engessado, mas entendo que quando se escreve para que outras pessoas leiam (principalmente no Brasil onde a educação é relegada a plano secundário) de alguma forma há uma contribuição para o conhecimento de quem lê. Tenho cuidado sim de preservar a língua. Essa é uma preocupação primordial em mim.

Por outro lado, não me sinto "dominado" pelas palavras/regras e não permito que me transformem em escravo. Mas também não as escravizo. Digamos que somos sócios nas trilhas da poesia.:) Pode ser que exista uma relação simbiótica envolvida, talvez eu seja realmente um "vampiro", como nesse poeminha:

vampiro

sou inocente
no destroçar
das veias da
poesia

quando escrevo
sangro as palavras
e entrego a
h e m o r r a g i a

Agora, não acho que "licença poética" me permita escrever "nós vai", " a gente semos" e coisinhas assim :)



(20/8/2005)
Ainda a palavra...


Oi Solange. Concordo inteiramente com meu xará [Manoel de Barros]. Tudo tem seu lugar na poesia e há poesia em tudo. Em qualquer objeto que você veja, vai encontrar certamente poesia.

A "pele de mariposa" é um exemplo sim, assim como outros objetos que existem nos meus poemas. Os objetos são capazes de produzir emoções, logo contém poesia.



Um pássaro que voe por entre a folhagem de uma árvore, uma lâmpada apagada em um poste, um barco no mar, uma pipa empoleirada nos fios de eletricidade. A questão é enxergar e tentar transmitir nos poemas essa poesia toda. Então posso acreditar que a poesia está nas coisas e os olhos dos poetas conseguem enxergá-la. O mesmo posso dizer do berimbau. A liberdade da corda é um canto de poesia. Por mais que o arco tente tolher essa liberdade, não consegue.


Manoel de Barros é o mestre em desinventar objetos e recriá-los com novas funções e novos sentidos. Eu penso mais em "desconstruir" objetos. Quando digo, por exemplo:

viagem

um barco
arrasta
a paisagem

Não é uma função do barco arrastar paisagens, mas desconstruindo-o e reconstruindo dando esta nova funcionalidade, posso arrastar o mundo com ele. Talvez haja uma semelhança entre "desinventar" e "desconstruir", mas o conceito básico é diferente. Tudo pode ser desconstruído, tudo pode ser desinventado. Até mesmo os seres animados.

calix

a gaivota
desenha no meio
do horizonte
o til do não

no sim das montanhas
dormem os pontos
de interrogação



na próxima semana: saiba o que Nel acha sobre autocrítica e direitos autorais. Aguarde!


fonte: blog da Sol Firmino

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

aNéis

risca juras ° jura-as eternas

trilha tempos
° surfa loucuras

tece amores
° pinta saudades

morre paixão
° nasce sonho

universo
° casapoesia

° meirelles


christina magalhães herrmann


Poemenagens...

Nel Meirelles pisava na poesia como quem pisa em rosas:

Saudade

Morte
Ou metamorfose
...Que sabemos sobre esta outra forma de sonho?

Tere Tavares
*

A fugaz poesia se eterniza
na alma de um Nel instante
além da vida e sem mentiras.
Madalena Barranco
*
já tive medo da morte.
não da morte em si,
mas do que acontece
aqui dentro do peito.

o que mais incomoda
é o ser partido ir
embora sem corpo
... sem direção.

perdemos a referência matéria,
supomos uma nova realidade :

transgredir dois corpos no espaço
e (re)tornar apenas

um.
Clauky Saba
*
porque poesia
com porquê
cumpriu seu mister
em poucas linhas

no mínimo
cresceu o menino dentro
ao máximo [lato sensu]

foi ser o centro
[estrito]
do universo

partiu em corpo
está em espírito
escrito em [cada] canto
no [semi]breve encontro
conto-poema-canção

nel etéreo
eterno nel
até

[três pontos]


ao nel meirelles
aqui, ali, em melhor lugar,
meu mais reticente [incô]modo
de dar-te a deus.


valéria tarelho
[p.s.: amigo, onde quer que vá: poesia nelles]